16.5.06

WALMART

O WALMART é a maior empresa do mundo, levando-se em conta o faturamento, e uma das maiores empregadoras privadas. Como um empório interiorano se transformou na maior e mais influente empresa do mundo? A resposta é um senhor caipira que atendia pelo nome de Sam Walton. Fazer compras e – por que não? – almoçar ou tomar um café, revelar fotos, passar na farmácia e abastecer o carro. Resolver tudo num lugar só é fácil para quem frequenta o WALMART. Uma marca que deveria ser admirada no mundo inteiro. Mas não é. Seu canibalismo no mercado, levando empresas tradicionais a falência devido a sua feroz e implacável concorrência, fizeram com que o WALMART fosse odiado em muitas cidades do mundo. Porém, o WALMART é de qualquer ângulo que se olhe, um fenômeno de dimensões avassaladoras. É mais que um empreendimento. É quase uma religião, cujo princípio fundamental é lucrar muito e sempre. Uma corporação que desperta admiração, temor e espanto. É o preço do sucesso.

A história
Samuel Moore Walton nasceu no ano de 1918. Em sua época de estudante foi eleito o rapaz mais versátil e se tornou presidente do corpo estudantil. Formou-se em economia em 1940. Seu sócio e irmão James Walton (apelidado carinhosamente de Bud), formou-se pela academia militar. A primeira experiência dos irmãos foi como trainees em uma loja na cidade de Oklahoma, chamada DuPont. A primeira loja dos irmãos foi uma franquia da rede Ben-Franklin, na cidade de Newport, estado do Arkansas, em 1945. Foi ali, conhecendo seus concorrentes e colocando em prática as compras diretas dos produtores e vendas por preços baixos que eles exerceram seu aprendizado de comerciante. Bud e sua esposa Audie associaram-se a Sam e sua mulher Helen por um ano, até comprarem sua própria loja. O casal Walton transformou a loja, que operava com prejuízos, em uma das maiores unidades da rede Ben-Franklin em Arkansas. Todo esse sucesso teve um preço. Em 1950, o proprietário que alugava o imóvel para o casal pediu-o de volta. Foi então que mudaram para Bentonville, uma cidadezinha de hábitos caipiras, encravada no estado americano de Arkansas. Em 1951, o casal passou a administrar uma pequena loja de variedades e de preços baixos chamada WALTON’S 5 & 10. Em seguida, associando-se com o pai e o irmão Bud, seus dois cunhados (Nick e Frank), ele abriu lojas em Little Rock, Springdale e Siloam Springs, no Arkansas, além de outras unidades em Neodesha e Coffeyville.


Em uma década, Sam observou vários outros tipos de negócio, inclusive concorrentes como o K-Mart. O conceito da empresa K-Mart era simples: mercadorias de preços baixos com qualidade e ênfase no auto-serviço. Isto levou Sam a considerar um novo tipo de conceito: as Lojas de Descontos. Foi então, que ele e seu irmão Bud, resolveram fundar uma nova empresa no dia 2 de julho de 1962, com a abertura de sua primeira loja, que vendia produtos não perecíveis, na cidade de Rogers, estado do Arkansas, com o nome de Walmart Discount City (nome sugerido por um associado). Com a inauguração os irmãos colocaram em prática seu conceito de loja de descontos. A primeira loja tinha 5.000 m² e vendia de tudo, desde confecção para crianças à livros e auto-peças. Os anúncios nos jornais diziam que o WALMART vendia somente artigos de primeira qualidade.


Para conseguir cobrar menos que os concorrentes, “Tio Sam”, como era chamado pelos funcionários, tinha fixação por reduzir custos. Ele proibia despesas com material de escritório, e até seus principais executivos eram orientados a usar canetas recebidas de brinde. Essa preocupação em economizar o máximo possível também se estendia à vida pessoal. Anos depois, apesar de ser um dos homens mais ricos do mundo, andava numa picape velha, com os pára-choques amassados. Dois anos após sua fundação, a rede já contava com 24 lojas e um faturamento de US$ 12.6 milhões. Em 1968 a rede se expandiu para fora do estado do Arkansas, inaugurando lojas no estado do Missouri (Sikeston) e Oklahoma (Claremore). Em 1970 inaugurou seu primeiro centro de distribuição na cidade de Bentoville no Arkansas. Nesta época a empresa tinha 78 sócios, um total de 32 lojas, cada uma representando uma combinação diferente de capital entre diversos investidores. A família Walton era a maior acionista, mas Sam e Helen estavam muito endividados. Para sair do endividamento resolveram transformar a WALMART em sociedade anônima. O primeiro lote de 300.000 ações foi vendido no dia 1º de outubro de 1970, a US$ 16.50 cada, para aproximadamente 800 acionistas, arrecadando US$ 4.95 milhões.


A estratégia para o crescimento acelerado, adotada daquele momento em diante continuou seguindo a prática anterior. O foco de crescimento se manteve a partir das pequenas cidades, praticamente menosprezadas pelos concorrentes. No ano seguinte a rede já estava presente em cinco estados americanos. Em 1975, inspirado pelos trabalhadores que Sam Walton viu em uma de suas viagens pela Coréia do Sul, foi introduzido o famoso “Walmart Cheer” (o tradicional grito de guerra da empresa) para seus associados, como ele costumava se referir aos seus funcionários. Dois anos depois, com 195 lojas e vendas de US$ 678.4 milhões, ocorreu a primeira aquisição de grande porte: 16 lojas da rede Mohr Value Chain. Na década de 80, graças ao instinto visionário de Sam, a rede se lançou em novos formatos comerciais, inaugurando o primeiro clube de compras da empresa e o primeiro hipermercado. Nos anos seguintes a empresa teve um ritmo de crescimento impressionante nos Estados Unidos, abrindo unidades em vários estados, e se tornando, em 1990, a rede número 1 do mercado americano. Em 1991, a rede iniciou sua expansão internacional com a inauguração de uma loja na Cidade do México. No ano seguinte ingressou no mercado de Porto Rico e alcançou vendas superiores a US$ 1 bilhão em uma única semana. Em 1996 foi a vez de ingressar no mercado chinês, e, pouco depois, em 1999, no mercado britânico ao comprar o Grupo ASDA por US$ 10 bilhões. Em 2002, no dia anterior ao feriado de Ação de Graças, conhecido como Thanksgiving Day, a empresa registrou a maior vendagem em um único dia na história dos Estados Unidos: US$ 1.43 bilhões. Era a confirmação da transformação da empresa em um verdadeiro gigante do varejo. Nos anos seguintes esse gigante não sossegou: cresceu no mercado internacional, ampliou lojas nos Estados Unidos e viu suas vendas dispararem como nunca.


A imagem de rede que vende barato é o pilar único do grupo - e isso sustentou um dos slogans mais antigos da história do varejo. Esse é também o mote do atual slogan, com um adendo: a qualidade de vida. Em 2007, a rede retirou o famoso “Always Low Prices” e introduziu o “Save Money. Live Better”. Traduzindo: você pode viver melhor gastando menos - exatamente a linha de pensamento que está martelando na cabeça dos americanos nos dias de crise.


A linha do tempo
1978

Inauguração do WALMART PHARMACY, setor de farmácia da rede dentro de suas lojas.
Introdução do serviço automotivo e da seção de jóias nas lojas da rede.
1983
Inauguração em abril na cidade de Midwest City, estado do Oklahoma, do primeiro SAM’S CLUB, uma espécie de clube de descontos onde o usuário precisava se tornar membro para poder efetuar suas compras. Atualmente, essa divisão que responde por 21.1% do faturamento da rede (aproximadamente US$ 45 bilhões), possui somente nos Estados Unidos mais de 610 unidades com mais de 50 milhões de membros. Em algumas localidades vende também gasolina através de postos próprios. Hoje em dia são aproximadamente 750 lojas nos Estados Unidos, Brasil, Canadá, Porto Rico, China e México.
Introdução do One-Hour Photo (revelação de fotos em 1 hora) nas lojas da cidade de Tulsa em Oklahoma.
1987
Fundação do WALTON INSTITUTE, para treinamentos gerenciais.
1988
O primeiro WALMART SUPERCENTER (hipermercado), com 36 departamentos, abre suas portas na cidade de Washington, proporcionando o conforto de fazer compras em um só lugar. Suas enormes lojas, que tem em média 9.104.5 m², vendem uma ampla variedade de produtos, encontradas nas lojas normais da rede, além de produtos de jardinagem, farmácia, pet-shop, ótica, revelação de foto, celulares, salão de beleza, praça de alimentação, serviços financeiros como caixas automáticos e, em algumas unidades, venda de gasolina e serviços automotivos. Atualmente, somente nos Estados Unidos, existem mais de 2.950 lojas nesse modelo.
Nesta época, 90% das lojas já possuíam código de barras em todos os produtos.
1991
Introdução de sua primeira marca própria com o lançamento do refrigerante SAM’S CHOICE, produzido pela Cott Beverages exclusivamente para a rede.
1993
Introdução de outra marca própria chamada GREAT VALUE composta por uma linha de produtos de mercearia com mais de 350 itens. Logo, a marca se tornou conhecida por sua inovação, introduzindo no mercado produtos como leite em pó sem lactose, suco de laranja sem açúcar (para dietas de baixa caloria) e molho de peru para microondas. Essa marca própria é composta hoje em dia por mais de 1.300 produtos e fatura aproximadamente US$ 6 bilhões anuais. Atualmente cerca de 40% dos produtos vendidos em suas lojas são de marcas próprias como a Great Value, Equate (produtos de cuidados pessoais e de saúde como creme de barbear, xampu, sabonete e até teste de gravidez), Sam’s Choice (marca premium de itens comestíveis), Durabrand (eletrônicos), George (linha de roupas modernas), Faded Glory (linha de roupas clássicas) e Ol’Roy (rações e alimentos para cães). A marca de rações, que possui esse nome em homenagem a raça de cão de caça predileta de Sam Walton, se tornou em 2004 a mais vendida do mercado americano.
1998
Lançamento do WALMART NEIGHBORHOOD MARKETS (uma espécie de supermercado de bairro com lojas menores que vendem principalmente alimentos, bebidas alcoólicas e produtos de beleza e farmácia) com a inauguração de sua primeira loja na cidade de Bentonville no Arkansas. Atualmente esta divisão, responsável por vendas superiores a US$ 10 bilhões anuais, possui aproximadamente 185 unidades nos Estados Unidos.
2000
Lançamento de seu comércio eletrônico nos Estados Unidos. Hoje em dia esta divisão oferece mais de um milhão de produtos à um clique na tela do computador.
2006
Lançamento em março, na cidade de Plano no estado Texas, de um novo conceito de Supercenter (hipermercado) para concorrer diretamente com a rede TARGET. A nova loja tinha um apelo visual mais moderno e confortável, como chão de madeira, sushi bar, cafeteria, acesso de internet sem fio grátis, além de vender mercadorias de alta qualidade como cervejas e vinhos de primeira linha, e produtos eletrônicos mais sofisticados.
2008
Inauguração na cidade de Dearborn, Michigan, da sua primeira loja concebida inteiramente para atender o público muçulmano. O novo supermercado possui 550 tipos de artigos sob medida para esses clientes, como CDs de música árabe, cosméticos cuja fórmula não contém ingredientes proibidos pela religião (como gordura de porco) e carnes de animais que foram sacrificados segundo as regras sagradas do Corão. Na equipe de funcionários há 35 atendentes com fluência no idioma árabe. Ao inaugurar sua unidade islâmica, o WALMART, empresa profundamente identificada com o modo de vida americano tenta responder a uma expectativa de mercado.
Inauguração em setembro de mais um formato de loja: o MARKETSIDE. A proposta desse mercado é ser uma loja de conveniências, com um sortimento escolhido especialmente para a comunidade local. Os principais atrativos são os pratos prontos, feitos por chefs profissionais. Aproximadamente 20% da gama de itens vendidos são de produtos orgânicos, mais da metade dos produtos perecíveis já é pré-cortada e há mais de 100 variedades de queijos na área de deli. Atualmente existem cinco lojas nesse formato, todas no estado do Arizona.
2011
Inauguração no estado do Arkansas das duas primeiras lojas WALMART EXPRESS, um formato com menos de um décimo do tamanho de seus supermercados normais, que oferece uma seleção de produtos limitados, especialmente alimentos, frescos e industrializados, cosméticos, produtos de higiene e limpeza, além de remédios.


O tradicional grito de guerra
Qual é a origem do tradicional grito de guerra, conhecido como “Walmart Cheer”? Sam Walton estava visitando uma fábrica de bolas de tênis na Coréia do Sul, onde os operários, todas as manhãs, faziam ginástica e eram estimulados. Ele gostou da idéia e não via a hora de voltar para casa e experimentá-la com seus associados. Ele disse: “Acho que não é porque trabalhamos tão arduamente que temos que andar por aí com caras amarradas o tempo todo enquanto estamos realizando todo este trabalho, gostamos nos divertir”.


Em 1975 Tio Sam apresentou o famoso Wal-Mart Cheer para seus funcionários:

Me dá um W!
Me dá um A!
Me dá um L!
Me dá um Rebolado!
Me dá um M!Me dá um A!
Me dá um R!
Me dá um T!
O que formamos?
Wal-Mart!
Quem é o número um?
O Cliente!

A diferença... é nossa gente!
O que importa... é o cliente!

Wal-Mart é 10!
Wal-Mart é 1000!
É o melhor varejista do mundo!

A filosofia

Sua cultura empresarial, baseada em simplicidade, não tem paralelos no segmento de varejo. Aos olhos do mundo fica difícil entender como a maior empresa do planeta continua a cultivar hábitos interioranos. No WALT-MART, altos executivos trabalham em escritórios sem janelas. Ninguém viaja de classe executiva e os quartos dos hotéis são sempre compartilhados. A ostentação é quase um pecado. O culto à família e à moral protestante faz parte do negócio. O WALTMART é mais que um empreendimento. É quase uma religião, cujo princípio fundamental é ganhar dinheiro, muito dinheiro. Porém toda essa filosofia está baseada em duas palavras: SAM WALTON. O “velho e bom SAM”, que hoje em dia apesar de morto, parece continuar ainda muito vivo dentro da corporação, criou uma empresa repleta de rituais:
● Todos os funcionários entoam o grito de guerra da empresa mesmo que morram de vergonha. O grito também é entoado antes de toda reunião: os mais altos executivos da empresa bradam cada letra da palavra WAL-MART, dão uma rebolada ao anunciar o antigo hífen e abrem os pulmões para gritar que o cliente é o número 1, sempre.
● Quando um cliente chega a menos de 3 metros de distância, todo funcionário deve sorrir e perguntar educadamente: Oi, como vai? Posso ajudá-lo?
● Sam Walton encorajava seus executivos a irem à sede da empresa aos sábados para uma reunião com suas famílias, hábito que se mantém até hoje.
● A empresa nutre antipatia visceral por sindicatos.
● Qualquer funcionário pode se queixar dos chefes aos executivos do escalão superior. Em sua sede corporativa há telefonistas capazes de atender queixas dos funcionários brasileiros em português.
● Os escritórios da empresa e as roupas usadas pelos funcionários são simples, espartanos, o que ajuda a diminuir os custos.
● A cultura lembra uma cidadezinha americana com valores familiares conservadores.
● A reunião anual de acionistas, na pacata Bentonville, tem shows de música pop e astros do cinema como o comediante Will Smith, a cantora Shakira, o roqueiro Jon Bon Jovi e até os pingüins do filme Madagascar. Além disso, há disputa de animação entre as delegações de outros países, que criam coreografias e músicas e são estimuladas por “gritos de guerra” entoados pelos altos executivos da empresa em pleno palco. O comportamento dos profissionais chega a lembrar de fiéis em cultos religiosos.


Sam Walton até o fim da vida cortava o cabelo em um barbeiro por US$ 5 e se recusava a pagar mais de US$ 10 por uma gravata. Depois de sua morte, em 1992, os executivos souberam embarcar com sucesso nas duas maiores ondas que varreram o mundo dos negócios: globalização e tecnologia. Ao mesmo tempo, preservaram como dogma, a cultura peculiar criada pelo fundador, baseada em valores provincianos do meio-oeste americano. O grande paradoxo, ou o maior segredo, foi justamente conseguir manter esse estilo de cidade pequena enquanto se tornava a maior empresa do mundo. Nas lojas da rede, é mais fácil comprar uma arma do que alguns livros, revistas ou CDs banidos por seu conteúdo moral.


Um gigante odiado
Nunca houve na história do capitalismo uma empresa com tal dimensão. Em um desafio às leis estatísticas, a empresa não pára de crescer, 14% anuais, em média, nos últimos dez anos. É justamente esse ritmo de crescimento que garante volume cada vez maior e preços cada vez mais baixos. A continuar nessa toada, em 15 anos o WALMART terá 8.5 milhões de funcionários e faturamento próximo ao PIB do Japão, a segunda maior economia mundial. Mais de 80% das famílias americanas compram em suas lojas. Cerca de 5% dos adultos do país trabalham ou já trabalharam lá nos últimos dez anos. Todo mês, a empresa vende somente nos Estados Unidos mais de 320 milhões de latas de Coca-Cola, 270 milhões de litros de água mineral Nestlé e 110 milhões de litros de leite de sua marca própria. Das prateleiras saem um de cada cinco CDs ou DVDs vendidos nos Estados Unidos e uma boneca Barbie a cada 2 segundos. Nada mais natural, portanto, que o presidente mundial da rede seja recebido como chefe de Estado na China, país do qual a empresa importa mais de US$ 28 bilhões anuais, aproximadamente 10% das importações americanas da China. Ou que a família Walton, com uma fortuna estimada em US$ 90 bilhões, superior às de Bill Gates e Warren Buffett somadas, tenha acesso privilegiado garantido aos três últimos presidentes americanos.


O WALMART funciona para a economia global como um regulador de mercado. Tamanho é o conhecimento dos consumidores e dos mais de 60.000 fornecedores dispersos por 70 países, que a empresa atua como uma enorme bolsa de mercadorias ao casar a oferta com a demanda para estabelecer seus preços. A tentativa constante de reduzi-los, nas árduas negociações que exasperam os fornecedores, tem tido um impacto brutal na maior economia do planeta. O ex-presidente do Federal Reserve (Banco Central Americano), Alan Greenspan, considerava o varejista um dos maiores responsáveis pela baixa inflação americana. Porém, enquanto tenta expandir seus negócios pelo planeta, a empresa sofre vários ataques. Para seus críticos, é o símbolo de tudo o que há de errado no capitalismo e na globalização. Uma corporação poderosa como uma nação, que compra produtos a preço de banana em países asiáticos, compactuando com trabalho semi-escravo, para revendê-los garfando suculentas margens de lucro. Uma empresa de tentáculos gigantescos, capazes de destruir o pequeno comércio e de espremer cada centavo nas negociações com fornecedores, até levá-los à bancarrota. Um empregador cruel, que paga os piores salários do mercado, discrimina mulheres e minorias, desdenha de planos de saúde e combate ferozmente os sindicatos. Não há um único sindicalizado entre os 1.35 milhões de americanos que trabalham para a empresa. Um grupo de fanáticos moralistas, capazes de censurar CDs, filmes e livros, de proibir remédios legais, como uma versão da pílula do dia seguinte, e de tentar impor ao resto do planeta a cultura caipira do meio-oeste americano. Mas, para os milhões de consumidores que passam por uma das mais de 9.700 lojas do varejista espalhadas pelo mundo, porém, o WALMART talvez seja apenas e tão somente o lugar onde o preço é mais baixo sempre. E é justamente a fidelidade a esse slogan a origem do gigantismo da rede. Por trás dele está toda a estratégia revolucionária do negócio, o mercado faz o preço, a indústria acompanha. Com preços melhores, a empresa atrai multidões de consumidores, forçando os fornecedores a estar em suas prateleiras e seduzindo investidores.


A sede
Quem visita a sede mundial da empresa, na insípida Bentonville, cidadezinha do estado do Arkansas com pouco mais de 26.000 habitantes, leva um choque. Apesar do complexo possuir 15 edifícios e abrigar 11 mil funcionários, o prédio onde trabalham os principais executivos da maior empresa do mundo é um galpão marrom sem nenhum tipo de ostentação. Nada de caneta de ouro, mármore ou espelho. O escritório do presidente é uma sala comum, sem adornos, no meio dos demais executivos. A sala de Rob Walton, filho de Sam, e atual presidente do conselho, nem possui janela. Gravata, só em ocasiões especiais. Quando viajam a trabalho, todos voam de classe econômica. O presidente da empresa, cuja remuneração total passa facilmente dos milhões de dólares, divide quartos de hotel de US$ 50 com outros executivos. Na época de Sam Walton, que tinha como hábito lavar o próprio prato após as refeições, até oito pessoas ocupavam o mesmo quarto nas viagens. Aqueles que visitam a sede da empresa têm de pagar pela Coca-Cola ou pelo cafezinho caso queiram beber algo. Não há restaurante executivo. Os almoços oferecidos aos estrangeiros, funcionários ou executivos, durante a semana da reunião de acionistas costumavam ser piqueniques com salada, hambúrguer, chá gelado e limonada. A filosofia imposta por Sam Walton à aqueles que chamava carinhosamente de seus “associados” (os funcionários) é bastante simples: não há preço baixo na loja sem custo baixo na empresa. Por isso, é preciso economizar cada centavo.


A história mantida viva
Na sede em que funcionou a primeira lojinha da rede (Walton’s 5&10), em Bentonville, foi instalado um centro de memória, remodelado e reinaugurado em 2011, que recebe aproximadamente 85 mil visitantes por ano, a maioria de funcionários do WALMART. Na semana em que ocorre a reunião dos funcionários, a rotatividade de visitantes sobe para uma média de duas mil pessoas por dia, que pagam por artigos inusitados, como um ursinho de pelúcia vestido com uma camiseta que traz uma enorme “I love Walmart” , broches, camisas e bonés.


Nesta espécie de museu o visitante conhecerá como a maior empresa do mundo foi construída, com direito a uma reprodução perfeita e fiel do escritório onde Sam Walton costumava trabalhar, a exposição de sua famosa caminhonete Ford F-150 de 1979, impecavelmente conservada, além de vídeos, fotografias e artefatos originais que contam a história de seu fundador e do WALMART. O centro de memória conta também com o WALMART SPARK CAFÉ, onde é possível fazer deliciosos lanches.


O gênio por trás da marca
Antes de construir o WALMART, Sam Walton promoveu uma verdadeira revolução no varejo e exerceu um longo aprendizado de comerciante. Sam nasceu em Kingfischer, estado do Oklahoma, em 1918, filho de Thomas Gibson Walton. Já na época de estudante, ele gostava de negociar qualquer coisa: cavalos, mulas, gado, casas, fazendas e carros. Exerceu todos os tipos de atividades: banqueiro, fazendeiro, avaliador de fazendas, corretor de seguros e de imóveis. Formou-se em Comércio e Economia, na Universidade de Missouri, em 1940 e, logo em seguida, aceitou emprego na J.C.Penney, então uma rede de lojas de miudezas, na cidade de Des Moine no estado do Iowa, onde começou sua carreira de comerciante, trabalhando durante 18 meses, até os Estados Unidos entrarem na Segunda Guerra Mundial. Ao ingressar para o exército tinha certeza de duas coisas: sabia que se casaria com Helen e que trabalharia no varejo para ganhar a vida.


Em 1945, após o término da guerra, decidiu ter seu próprio negócio. Helen concordou, mas impôs duas condições. Uma era a de que ele não deveria ter sócios, e a segunda, que iria acompanhá-lo em qualquer lugar, desde que a cidade não tivesse mais que dez mil habitantes. Em 1º de setembro de 1945 inaugurou sua loja de franquia da rede Ben-Franklin, especializada em miudezas, no estado do Arkansas. Começava então a construir um império. Sua genialidade, centro da fórmula de sucesso do WALMART, residia numa idéia aparentemente simplória: compre barato, venda barato, mantenha as prateleiras bem sortidas, trate os clientes com respeito, valorize seus colaboradores e preste muita atenção aos acertos da concorrência. Isso se tornou uma espécie de dogma da empresa. Nos Estados Unidos, Sam Walton é visto como um revolucionário que teria promovido no comércio de varejo transformações semelhantes às provocadas por Henry Ford no chão da fábrica com a criação da linha de montagem.


Quando inaugurou o primeiro WALMART em 1962, uma febre se espalhava pelos Estados Unidos. Grandes redes promoviam descontos generosos e ameaçavam literalmente matar de inanição o comércio tradicional. Grandes fornecedores eram contra os descontos, porque temiam perder o controle do mercado com isso, e vários governos estaduais impunham restrições à prática. Sam percebeu o movimento antes da concorrência e agiu. Para conseguir oferecer aos consumidores descontos ainda maiores que os rivais, ele diminuiu custos, cortou margens de lucro e passou a faca nas despesas. Promoveu uma revolução nos processos de logística em torno do seu negócio e soube utilizar a tecnologia de maneira eficiente para controlar os estoques e derrubar ainda mais os custos. Informatizou a empresa em 1966 e fez do WALMART um modelo de eficiência e controle de inventários que encantou especialistas em administração e permitiu que a família Walton criasse a maior empresa do mundo vendendo barato. Até o ano de sua morte, Sam pilotava seu próprio avião para visitar tantas lojas quanto fosse possível. E queria que seus executivos fizessem o mesmo. “Ninguém conhece tanto os clientes quanto os vendedores”, costumava dizer. Sam Walton faleceu no dia 5 de abril de 1992, vítima de câncer nos ossos, deixando US$ 25 bilhões em ações para a mulher e os quatro filhos. Nesta época a rede WALMART tinha 1.900 hipermercados, mais de 430.000 funcionários e faturamento de US$ 55 bilhões. Ainda hoje, a família Walton detém 39% da empresa.


A evolução visual
O logotipo do WALMART sofreu muitas alterações no decorrer dos anos. O primeiro logotipo não seguia um padrão, era utilizada qualquer fonte de letra disponível para impressão. Somente em 1964 a empresa adotou um logotipo padrão, utilizado por quase vinte anos e conhecido como “Frontier Font”. A principal mudança foi a introdução do hífen. Nesse meio tempo, a marca criou outro logotipo específico para ser utilizado em anúncios impressos, uniformes dos funcionários e sinalização interna das lojas. Este logotipo nunca foi usado nas sinalizações externas de suas lojas. Em 1981 o logotipo ganhou ares mais modernos, o que aconteceria novamente em 1992, quando o hífen foi substituído por uma estrela. Recentemente, em 2008, a marca estreou seu novo logotipo, que definitivamente perdeu o hífen e ganhou um sol estilizado no lado direito, onde cada raio tem um significado próprio: preços imbatíveis, produto de qualidade, experiência de compra, busca pela excelência, atendimento ao cliente e respeito ao indivíduo.


A identidade corporativa do SAM’S CLUB também sofreu algumas alterações ao longo dos anos.


Os slogans
Save Money. Live Better.
(2007)

Always low prices.
(2000)

WE SELL FOR LESS every day!
(Canadá)

Enjoy The Possibilities.
(Sam’s Club)
É pagar menos. É viver melhor. (Brasil)


Dados corporativos
● Origem: Estados Unidos
● Fundação:
2 de julho de 1962
● Fundador: Sam e Bud Walton
● Sede:
Bentonville, Arkansas
● Proprietário da marca:
Wal-Mart Stores, Inc.
● Capital aberto: Sim (1972)
● Chairman: Robson Walton
● Presidente & CEO: Mike Dude
● Faturamento: US$ 421.8 bilhões (2010)
● Lucro: US$ 16.38 bilhões (2010)
● Valor de mercado: US$ 178.3 bilhões (setembro/2011)
● Lojas: 9.700
● Clientes: 200 milhões/diariamente
● Presença global:
28 países
● Presença no Brasil: Sim (452 lojas)
● Maiores mercados:
Estados Unidos, México e Brasil
● Funcionários: 2.100.000
● Segmento:
Varejo
● Principais produtos: Alimentação, eletrônicos, eletrodomésticos e vestuário
● Principais concorrentes:
Target, K-Mart, Kroger, Costco e Carrefour
● Ícones: Smiley (a carinha redonda amarela que indica descontos)
● Slogan:
Save Money. Live Better.
● Website: www.walmart.com

O valor
Segundo a consultoria britânica Interbrand, somente a marca WALMART está avaliada em US$ 142.03 bilhões, ocupando a posição de número 1 no ranking das marcas mais valiosas do varejo americano. A empresa também ocupa a posição de número 1 no ranking da revista FORTUNE 500 (empresas de maior faturamento no mercado americano) de 2011.

A marca no Brasil
A empresa fincou sua bandeira no país no dia 3 de maio de 1995. Chegou com estardalhaço a São Caetano do Sul (região da grande São Paulo), com a inauguração de sua primeira unidade do SAM’S CLUB, uma espécie de clube de descontos onde o usuário precisa se tornar membro para poder comprar. Ainda neste ano inaugurou mais duas unidades do clube de descontos, além das duas primeiras lojas no formato de hipermercados, conhecidas como WALMART SUPERCENTER. Em 1997 a rede inaugurou suas primeiras unidades no interior paulista, e, no ano seguinte, chegou ao Paraná. A expansão foi acentuada em 2000, quando o WALMART inaugurou lojas no Rio de Janeiro e Minas Gerais. A empresa começou a atuar no ramo de farmácias no início de 2003, com a abertura da primeira DROGARIA WALMART. No Brasil, só com a recente aquisição da rede de supermercados Bompreço (então com 118 lojas) em 2004, por US$ 315 milhões, o WALMART pareceu ter encarado seu destino de ser um gigante também no país. Em 2008 inaugurou sua operação de comércio eletrônico. Ainda neste ano, no mês de dezembro, inaugurou o primeiro hipermercado eco-eficiente da rede no país, no bairro de Campinho, na zona Norte do Rio de Janeiro. A loja reunia mais de 60 iniciativas sustentáveis (como placas do estacionamento que utilizam plástico reciclável e clarabóias que aproveitam a luz natural do dia), resultado de um trabalho realizado desde 2005, envolvendo testes e implantações de mudanças que respeitam o meio ambiente. Nos mesmos moldes, o WALMART inaugurou em abril de 2009 a segunda loja eco-eficiente da rede e a primeira em São Paulo, no bairro do Morumbi. Atualmente existem 18 lojas nesse formato.


Atualmente a empresa figura na terceira posição do Ranking ABRAS de supermercados e faz concorrência direta com o francês Carrefour e o Grupo Pão de Açúcar. As lojas WALMART, localizadas no Sudeste e no Centro-Oeste do país, têm tamanho médio de 7.500 metros quadrados e, nas gôndolas, de 45.000 a 65.000 itens, incluindo um grande número de importados e produtos exclusivos de marca própria. Além disso, a empresa possui outras oito bandeiras em todo Brasil: WALMART SUPERCENTER, SAM’S CLUB (26 lojas e mais de 1.5 milhões de membros), TODO DIA (cuja primeira loja foi inaugurada em 2001 na cidade de São Paulo, e hoje possui 137 unidades), BOMPREÇO (hoje com 36 unidades), HIPER BOMPREÇO, NACIONAL, MERCADORAMA, HIPERMERCADO BIG e MAXXI ATACADO. Ao todo são aproximadamente 500 lojas, em 18 estados das regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, além do Distrito Federal, que empregam mais de 83 mil funcionários e faturaram em 2010 mais de R$ 22 bilhões. A empresa também possui 250 unidades de drogarias dentro de suas lojas. O Brasil é a terceira operação da empresa em número de lojas, perdendo somente para Estados Unidos e México.


A marca no mundo
Atualmente é a maior empresa do mundo em faturamento (US$ 421.8 bilhões), maior vendedora de brinquedos, maior empregadora privada americana, maior em sua categoria dentro do competitivo mercado americano com 20% de participação (maior que gigantes como Carrefour, Kroger e Royal Ahold, juntas) e mais poderoso cliente das indústrias de bens de consumo, operando mais de 9.700 lojas sob 60 diferentes bandeiras em 28 países. Boa parte de suas lojas estão localizadas nos Estados Unidos, aproximadamente 40%, porém, nos últimos anos a empresa vem crescendo muito no mercado internacional, assumindo a liderança em sua categoria no Canadá (329 unidades) e México (onde tem quase 1.900 lojas, entre Sam’s Club; Supercenter; Bodega, que inspirou a filial brasileira a criar a rede Todo Dia; e Superama, equivalente a um “Pão de Açúcar Especial”), além de manter lojas na Inglaterra (onde atua com o nome de ASDA e possui aproximadamente 538 unidades), Brasil, Japão (mais de 410 lojas), Porto Rico, China (quase 350 unidades), Argentina (mais de 65 lojas), Chile (295 lojas) e países da América Central, como El Salvador, Costa Rica, Guatemala, Honduras e Nicarágua. As operações internacionais respondem por mais de 20% do faturamento da rede. Somente nos Estados Unidos a empresa possui 123 centros de distribuição. O maior deles fica localizado perto de Bentoville, onde anualmente são movimentados mais de 5 bilhões de caixas de mercadorias. A grande maioria dos centros de distribuição tem capacidade de classificar mais de 15.000 caixas de mercadoria por hora. Por meio de sistemas de informação avançados, o estoque é mantido em níveis mínimos, as entregas são dirigidas das esteiras para os caminhões, e as lojas estão sempre abastecidas. Diariamente mais de 200 milhões de pessoas transitam por suas lojas no mundo inteiro, isto equivale a quase um Japão inteiro.

Você sabia?
O WALMART passou de um simples empório a uma potência cujas vendas equivalem ao PIB da Bélgica. Muitos dos grandes movimentos do capitalismo americano, como a recente fusão da Procter & Gamble com a Gillette, foram resultados da enorme pressão exercida pela rede.
Nos Estados Unidos a rede está presente, quase que exclusivamente em cidades de pequeno e médio porte, localizadas no chamado “cinturão da bíblia”, formado basicamente pelos estados em que o presidente Bush venceu a eleição de 2004, não possuindo lojas em cidades cosmopolitas como Nova York. Em algumas cidades americanas, legislações foram criadas para impedir a entrada da rede no mercado.
Um dos principais símbolos do WALMART é o SMILEY, a simpática carinha amarela, uma espécie de Rollback (que significa “rolar pra tás”), tipo de etiqueta de desconto que indica que o preço recuou.


As fontes: as informações foram retiradas e compiladas do site oficial da empresa (em várias línguas), revistas (Fortune, Forbes, Newsweek, BusinessWeek e Time), sites especializados em Marketing e Branding (BrandChannel e Interbrand), Wikipedia (informações devidamente checadas) e sites financeiros (Google Finance, Yahoo Finance e Hoovers).

Última atualização em 28/9/2011

2 comentários:

Anônimo disse...

As regras do jogo do capitalismo precisam ser mudadas até mesmo para a sobrevivência do próprio capitalismo. Ele está cada vez mais predatório, tão ao ponto de ser autofágico. È necessário que o capitalismo possua uma sustentabilidade baseada em condições dignas para que aos que fazem parte da sua cadeia tenham condições de usufruir dos seus benefícios.

Anônimo disse...

infelizmente eh isso amigo
o capitalismo reina
quem pode pode
quem não pode obedece
mtu interessante esse conteudo, o criador da empresa eh praticamente um tio patinhas da vida real hehe